A investigação descrita foi desenvolvida com o intuito de estudar o modo como mães e pais vivenciam a etapa de desenvolvimento pessoal, conjugal e familiar correspondente à gravidez e parentalidade.

Visou determinar quais os acontecimentos adversos de vida e as preocupações parentais predominantes neste período, analisar quais os factores de risco para a morbilidade psicológica parental e avaliar o impacto da sintomatologia ansiosa e depressiva da mãe e do pai, bem como dos seus níveis hormonais, no desenvolvimento fetal e neonatal. Hipotetizava-se que factores de diversa ordem (demográficos, psicossociais, relacionais, de suporte social, acontecimentos adversos de vida e preocupações parentais), pudessem determinar a vivência psicológica da gravidez e transição para a parentalidade, por parte de mães e pais, contribuindo para um aumento da sua sintomatologia ansiosa e depressiva, bem como dos seus níveis de cortisol.

Hipotetizava-se, de igual forma, que estes factores de risco pudessem ser distintos em ambos os elementos do casal e específicos para cada etapa da gravidez e puerpério. Sugeria-se ainda que o estilo de vinculação fosse uma variável mediadora do impacto dos acontecimentos adversos de vida no incremento da sintomatologia ansiosa e depressiva durante este período de transição, e que a sintomatologia psicopatológica de mães e pais, bem como os seus níveis de cortisol afectassem, embora diferencialmente, o desenvolvimento fetal e neonatal. A amostra deste estudo englobou 123 mulheres grávidas e respectivos companheiros, recrutados na Consulta Externa de Ginecologia/Obstetricia da Maternidade de Júlio Dinis (MJD), os quais foram avaliados, nos três trimestres de gravidez e aos 15 dias e três meses após o parto, quanto à sintomatologia ansiosa e depressiva e à ocorrência e preocupação com acontecimentos adversos de vida, e, na gravidez, quanto ao estilo de vinculação e a qualidade do suporte prestado pelo companheiro e por outras figuras significativas.

Foi, de igual forma, examinado o desenvolvimento fetal no 2º trimestre de gravidez e o desenvolvimento neonatal, aos 15 dias e três meses após o parto. Os resultados obtidos suportam empiricamente algumas das previsões:

1) a presença de morbilidade psicológica de tipo ansioso e depressivo, tanto nas mulheres quanto nos homens, embora mais acentuada na mãe do que no pai;

2) a comorbilidade entre ambos os tipos de sintomatologia psicopatológica, em mães e pais, embora os sintomas de ansiedade se tivessem apresentado mais prevalentes do que os sintomas depressivos, durante todo o período de transição para a parentalidade;

3) a variação temporal observada em ambos os tipos de sintomatologia psicopatológica, com o 1º trimestre e o parto a serem identificados, como os períodos associados a uma maior vulnerabilidade em ambos os elementos da díade conjugal;

4) a existência de factores de risco associados à presença de sintomatologia ansiosa e depressiva, alguns deles comuns entre mulheres e homens, tais como a multiparidade, habilitações literárias mais baixas e maior número de acontecimentos adversos de vida, e outros específicos da mãe, como é o caso do estilo de vinculação e da ocorrência/preocupação com acontecimentos adversos de vida relativos ao domínio familiar e interpessoal, à actual gravidez e à aceitação da actual gravidez, e do pai, relativos à qualidade discordante do relacionamento estabelecido com a companheira e a ocorrência/preocupação com acontecimentos adversos de vida a nível profissional e educacional;

5) o impacto negativo da sintomatologia ansiosa e depressiva da mãe e do pai, e dos seus níveis de cortisol, no desenvolvimento fetal e neonatal: maiores níveis de ansiedade traço das mães, no 1º trimestre de gravidez, permitem predizer um menor crescimento e uma maior actividade fetal no período intermédio da gestação, bem como um menor peso do bebé à nascença; maiores níveis de cortisol maternos, no 2º trimestre de gestação, permitem predizer uma maior actividade fetal em igual período; níveis mais elevados de sintomatologia depressiva paterna, no 3º trimestre de gravidez, permitem predizer um maior número de semanas de gestação à altura do parto; maiores níveis de sintomatologia ansiosa paterna, exibidos 15 dias após o parto, permitem predizer piores desempenhos do recém-nascido na subescala Regulation of State e resultados mais elevados na subescala Excitable da NBAS; melhores desempenhos do recém-nascido nas subescalas Orientation e Motor podem ser preditos, respectivmente, por maiores níveis de sintomatologia ansiosa, no 3º trimestre, e de sintomatologia depressiva, no 1º trimestre de gravidez, do pai.


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